sábado, 5 de setembro de 2015

SENTIMENTOS DE UM ALGUÉM III



CAPITULO 3
 DESASTRES
Quando eu penso que nada pode piorar, simplesmente a vida vem e acaba comigo de novo. A droga do ônibus quebra no meio da ladeira, me senti numa montanha-russa descendo de costas, mas espera ai, eu nunca fui a uma. Então não posso dar muitos detalhes sobre isso.
            Depois de não sei quanto tempo a tartaruga móvel funciona, se bem que aquilo está mais para lata velha, enfim, morar no interior tem dessas coisas, principalmente onde moro, nem sinal de celular tem, a última vez que conversei com alguém, cai literalmente de bunda no chão, mas também quem manda ficar em cima da mesa. Obs: PALAVRAS DE MAINHA.
            A pesar daquele clima chato entre eu e a Sophia, chegamos juntas no colégio como fazíamos todos os dias. Senti-me um pouco deslocada, mas não dava para ficar muito tempo longe dela, não conseguiria mesmo se quisesse.
            A professora Adriana já estava dando aula quando entramos na sala, todos olharam em nossa direção, não sei por que, mas algo não estava cheirando bem. E realmente não estava, estávamos podres, imagina ai uma mistura de perfume caro com fumaça de óleo queimado, pois é da próxima vez que aquela coisa ambulante quebrar eu mesmo venho a pé, o que na verdade são 17 km perto da vergonha que estou sentindo agora?
            Minha pergunta nem precisa de resposta, depois do mico do início sentamos no fundo da sala, situação mais que complicada. Não prestei atenção em uma palavra se quer da professora, minha cabeça ia longe, mas precisamente numa certa morena de cabelo negro como a noite.
            Posso dizer que a minha cara devia está muito ruim, porque pra todo mundo está olhando na minha direção a coisa não poderia ser boa. Passando algum tempo, levo um beliscão no braço. Ia até reclamar com o infeliz se não tivesse sido a minha morena.
            Perguntou-me se estava bem, mas acho que fiquei tempo de mais calada, a paixão tem dessas coisas infelizmente, ficamos bobos até com um simples apertar da bochecha. Bem, talvez possa dizer que estou ficando mesmo aluada.
            Ela era a menina mais cobiçada, além de ser linda ainda tinha diversos dons como saber cantar e atuar nas peças da igreja, quando falava sua idade todos se assustavam, não tinha cara de criança. Pelo contrário, qualquer um que a visse diria ter mais de dezoito anos ao invés de onze.
             Meu pai dizia eu era um fusquinha perto da Ferrari que era ela, minha mãe sempre discutia com ele sobre esses comentários, mas fazer o que se ele tinha razão.
            Minha autoestima sempre foi baixa, sempre me achei feia, gordinha e branquela demais. Resolvi mudar algumas coisas, não dava para continuar dessa forma, algo precisava ser feito, e eu fiz.
            Já havia dois meses que estava fazendo dieta, parece que começou a fazer efeito, tirei todas as porcarias da minha vida, comecei a participar das aulas de educação física que sempre fugia. Só a cabeça e o coração que ainda insistiam em não me cooperar.
            Vi que a minha linda andava meio distante nos últimos dias, então resolvi ter uns papos sérios com ela. Chegando perto dela, percebi seus olhos tristes, parecia que havia chorado bastante.
            Perguntei o que estava acontecendo, mal imaginava eu as bombas que ouviria a partir de então. E pensar que esse só seria o começo de tudo infelizmente, pode afirmar que esse início não poderia ser pior.
                Contou-me que o crápula do namorado dela queria transar logo com ela, fiquei roxa de ódio, minha raiva era tão tanta que se tivesse uma faca eu ia lá e arrancava o pinto daquele idiota. Percebendo a minha cara nada legal, tratou de me deixar um pouco mais aliviada, ao me dizer que não faria nada com ele por enquanto, pois não se sentia preparada.
            Fiquei o restante do dia pensando o que havia ouvido mais cedo, precisava fazer algo, só não sabia direito como. Dormi cedo, porque precisava acordar às cinco horas para pegar ônibus, sim aquele mesmo do outro dia.
            As coisas mais inimagináveis sempre aconteciam comigo, lembro-me do quinto ano quando inventei de brincar de Power Rangers, só podia está doida, mas se você está se pergunto qual o problema de brincar disso, responderei que nada, tirando a parte que quebrei os dentes da frente.
            Trágico pra não dizer outra coisa, pior ainda foi à reação de mainha a me ver toda ensanguentada, a cara do Chucky com certeza estava bem melhor. Depois das broncas bem que merecida, fui para casa com a janelinha aberta e assim permaneci por um bom tempo.
            Com esses pensamentos segui em direção ao mercado, comigo foi Sophia, Fernanda, Flavia e Elisa, era sem dúvida um quinteto meio louco. Sempre tive manias muito diferentes, uma delas era não beber da água do colégio, para não morrer de sede comprava minha garrafinha mineral todos os dias.
            Chegando quase enfrente ao portão de acesso da onde estudávamos, dei por falta de uma coisa. Cadê o meu chinelo do pé esquerdo meninas? Ouvi um silêncio assustador, ninguém me respondeu nada.
            Mas como é que pode uma pessoa ser tão desligada assim, essa situação só poderia ter acontecido comigo, perder o chinelo pelo caminho e não ver. Na via de dúvidas, voltei atrás e resolvi procurar por onde havia passado antes.
            Fui ao mercado, a moça do caixa me olhou preocupada, estranho mesmo foi a cara dela quando disse o motivo de está ali. Tadinha acho que se perguntou se realmente eu batia bem da cachola, estava já parecendo um saci tentando me equilibrar em um pé só.
            Quando vi que teria de ir assim até me bateu um frio na espinha, chegando perto da sala abri a bolsa, qual foi a minha surpresa? Sim, a maldita sandália estava lá dentro, se me perguntar como ela foi parar lá, responderei que nem eu mesma sei.
            A coitada estava arregaçada a correia tinha desprendido claro que eu não iria entrar assim com ela na sala.  Adivinha vocês a minha ideia de girino, sei que é difícil então lá vai.
            A tontinha aqui resolver pedir ajuda para pessoa mais temida da face da terra, e era ele seu Nestor o diretor do colégio. Ele era ranzinzo, não dava um sorriso se quer e nunca cumprimentou os alunos.
            Ao chegar a sala dele, percebo que as coisas ali não andavam nada bem, tudo piorou de vez quando ele olhou para mim e perguntou-me o que estava fazendo fora da sala em horário de aula.
            Foi ai que soltei tudo de vez, disse bem assim para ele: Seu Nestor minha sandália quebrou o senhor poderia consertá-la?
            Olhou-me com cara de desaprovação então falou: E como a senhorita quer que eu faça isso mesmo?
            Ah sei lá, se tiver um grampeador ai é só dar umas pregadas nela que volta a funcionar.
            Depois dessa situação bizarra e por incrível que pareça ele ter aceitado consertá-la, fui mandada para a sala é lógico. Todos estavam entretidos com a aula de artes e nem prestaram atenção no meu pé pelado, exceto as safadas das meninas, tenho certeza que foi uma delas ou até todas.
            Passou um tempo, estava até esquecida desse pequeno probleminha, se não fosse o senhor zangão aparecer e me lembrar dele. Todos o olharam assustado, mas depois tudo se normalizou quando ele me entregou a maldita sandália e todos morrerem de tanto rir da minha cara de pinico.
            Então, depois dessa posso dizer que fui zoada até comprar uma nova sandália, sim isso mesmo eu usei a bendita desgraça até o fim de ano só pra ter noção.

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